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Vocação, o que é?
"Era verão. Com o calor que faz em Ponta Grossa não dá vontade de sair, mas me lembro de que tenho de pôr uma carta no correio. Suando por todos os poros, entro na fila. Por sorte o funcionário é gentil, sorridente. A senhora que está à minha frente lhe pergunta: ‘O senhor não sente calor ficando aqui dentro a manhã inteira? Não tem vontade de ir tomar uma coca-cola?’ ‘Vontade tenho’, responde, ‘mas, vendo toda essa gente que sente tanto calor quanto eu, não posso perder tempo’”.
Viver a vocação é colocar o OUTRO em primeiro lugar! E pensar nele, é viver por ele.
Todos somos vocacionados! O padre da paróquia, a irmã do convento, o esposo da dona Maria, a coordenadora da catequese, a Carolina da Infância Missionária, o Zé do mercado, a Andréia que nasceu ontem... Você e eu!
Vocação é Dom de Deus! Não somente, pois exige também uma resposta muito concreta. Somente a partir do sim de alguém é que a vocação se concretiza. Vocação é diálogo entre o amor de Deus que chama e a resposta livre do homem e da mulher.
Deus vem ao nosso encontro e, no seu amor, nos chama:
· nos chama à vida. Quem vive é vocacionado;
· nos chama ao cristianismo. O cristão é vocacionado;
· nos chama a ser seminarista, a fazer uma experiência concreta e especial do seu amor.
Com o chamado de Deus vem junto a necessidade da renúncia.
Quem diz sim à vida cristã deixa as outras religiões; quem escolhe casar, não pode ser padre; aquele que sente a vocação para a vida consagrada, renuncia ao matrimônio. A renúncia é exigência para todos:
“Vai, vende tudo o que tens... depois vem e segue-me” (Mc 10,21).
"Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" (Mc 8,34).
Toda vocação é para a missão. Cada vocacionado tem a sua missão.
· o cristão é chamado a ser sal e luz no mundo;
· o casado é chamado a viver a comunhão de vida e a gerar novas vidas;
· o presbítero é chamado para ser pastor de um povo;
· o religioso é chamado a viver a pobreza, a obediência e a castidade, realizando um trabalho na escola, na paróquia, no asilo, nas missões;
· o aspirante à vida consagrada é chamado a fazer uma profunda experiência de Deus através da vida comunitária, da leitura e vivência da Palavra, da vida de oração e da liturgia.
Diante do chamado de Deus, de suas exigências e da missão confiada a nós, é preciso dar uma resposta: dizer sim ou não. Quando se diz sim, e se vive este sim dado, a vocação se realiza. Os personagens da Bíblia disseram sim: "Eis-me aqui, envia-me" (Is 6,8); "Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra”.(Lc 1,38). E foram felizes!
Deus chama, o homem responde. Deus dá a graça necessária para a missão, o homem deixa tudo e abraça sua vocação.
Aquele que vive a sua vocação toma-se sinal de esperança no mundo e faz muita gente ser feliz. Quando descubro que, com a minha vida e com as minhas ações, posso ajudar os outros, meu coração se enche de alegria.
Muita gente está contando com o meu sim. Qual é a minha resposta?
Vivendo a nossa vocação no mundo, estaremos vivendo também a vocação que é de todos os cristãos: a Santidade. Ser Santo: esta é a grande vocação e é o convite do Papa João Paulo II para este Novo Milênio (cf NMI, 30).
Vivamos nossa vocação com alegria e, com o nosso testemunho, ajudemos tantas pessoas a experimentar a beleza de uma vida comprometida com o Evangelho.
Que Maria nos acompanhe sempre!
MERGULHAR FUNDO PARA COMPREENDER A DINÂMICA VOCACIONAL PESSOAL E PASTORAL
Deus chama, escolhe, elege e determina o que deve ser feito. O ser humano apenas pede sinais e obedece. É um conceito carregado muito mais de imposição divina do que de liberdade humana. Tem as características de magia das antigas religiões dominadas pelo determinismo da vontade divina que precisa ser obedecida.
A Bíblia, mesmo atribuindo mais a liberdade de ação ao homem, fica, contudo, muito dentro do determinismo divino, acima do determinismo humano. Essa prepotência divina sobre o agir humano passa do Antigo Testamento para o Novo Testamento. É mais mitigado, porém continua a ênfase do divino sobre o humano.
Isto vai contra a atitude do homem ocidental e da modernidade. Aquele se preocupa mais com os poderes humanos do que com os divinos. É uma visão mais realista do agir humano. Aquele percebe que onde se planta, nasce e cresce. É um ser que confia mais em si do que o homem oriental. Para o oriental, o ser humano é um chamado de Deus para a missão; para o ocidental, será um “funcionário” da sociedade, uma pessoa que, por necessidade social, precisa estar a serviço da comunidade. Esse mesmo funcionário, numa sociedade teocrática como a bíblica, é um “chamado” para colaborar nos projetos divinos. É por isso que temos, hoje, tanta dificuldade em entender o que é, de fato, “vocação”. Para o oriental, vocação é chamado especial, para o ocidental, é uma “função”, um cargo, para realizar o bem comum da sociedade. Aqui se levanta uma primeira questão: o que é melhor para a pastoral vocacional? E a segunda questão é a seguinte: o ideal, no caso da vocação sacerdotal e religiosa, é o vocacionado ser mais profissional ou espiritual?
Nestes dois casos, se percebe uma necessidade forte de uma inculturação como resposta sensata aos avanços, sem grande cuidado, da cultura oriental sobre a ocidental. Os frutos desta invasão cultural são dificuldade real da Pastoral Vocacional de apresentar aos jovens proposta de Cristo para trabalhar na seara do Reino e o surto da “dúvida vocacional” nas pessoas que viveram muitos anos o projeto da Vida Religiosa e Sacerdotal.
Os jovens precisam discernir estes aspectos acima para poderem, com maior clareza, usufruírem com objetividade a opção vocacional, a qual é uma caminha muito lenta e longa. Neste caso, entra o trabalho da “pastoral vocacional”, que é um grupo de pessoas que através de encontros específicos o ajudarão a fazerem a opção correta para vossas vidas. Penso que o desafio maior para resolver a crise vocacional é, sem dúvida, atacar estes pontos que alencamos acima.
Outro ponto interessante a ser considerado para um bom êxito na “pastoral vocacional” é que a pessoa só se realiza em Cristo. Neste caso, resta-nos trabalhar os verdadeiros valores cristãos no ser humano, pois neste caso, sua vocação, é nada menos que um permanente viver em Cristo. Viver em Cristo, estar com Ele, “permanecer” Nele (cfr. Jo 6,56; 8,31; 14, 4.7.9-10) não é nenhum acréscimo, uma espécie de luxo para alguns, mas o fiel cumprimento, a perfeita realização da plenitude humana, a condição necessária para que todo homem sinta-se autenticamente feliz, realizado, encontrando o sentido verdadeiro para a sua vida. O chamado para viver em Cristo é, portanto, um apelo decisivo que coloca em jogo a realização ou o falimento do homem como tal. O permanecer em Cristo não representa um complemento extrínseco e acessório do ser humano, mas a realização de suas exigências mais radicais, aquelas que formam a substância da sua própria estrutura de criatura.
A vocação cristã é, portanto, a verdadeira vocação de toda pessoa humana. Trata-se da vocação para a vida, para ser filho ou filha de Deus em Cristo Jesus. Neste sentido, todas as pessoas são vocacionadas, chamadas e convocadas. Ninguém é deixado de fora, esquecido por Deus, pois Ele quer que toda criatura humana seja igualmente seu filho, ou filha, em Cristo. Quanto mais a pessoa se aproxima de Cristo, mais vai conseguindo perceber qual é o projeto de Deus para a sua vida. Em Cristo, não só a liberdade, mas também o tempo e as circunstâncias pessoais e sociais são seriamente acolhidas e discernidas para chegar-se ao reconhecimento dos apelos do Deus que chama. Em outras palavras: a vocação do homem e da mulher só adquire verdadeiro significado quando se torna vida, configuração, inserção total no mistério de Cristo. Cristo, pois, é a motivação, o fundamento de toda a existência cristã como vocação.
Diante do mistério de Cristo, plenitude do sentido da vida, a pessoa é capaz de deixar tudo, pois sabe que somente o “conhecimento” do Filho pode representar o maior ganho para a sua existência (cfr. Fl 3,7- 11). Do encontro com Cristo, da relação com Ele, nasce à resposta ao chamado concreto em atitudes de serviço, de participação e de entrega aos irmãos, e se não for por meio de uma experiência real, a “vocação” se tornará alienada, ou seja, no caso da vocação religiosa, ao invés de termos irmãos morando juntos por um único ideal, teremos as invejas, os ciúmes e um bando de homens morando juntos como se fosse uma república, e infelizmente em muitos conventos isso acontece. O que vemos não é a expressão de uma vocação, mas, de fugas, o verdadeiro vocacionado é capaz de acolher o irmão, enquanto que aquele que não tem vocação só saberá ficar vendo defeitos em tudo ao seu redor e, podemos, até afirmar é uma pessoa frustrada.
Outro fator importantíssimo a ser considerado; é nunca acolher um jovem no Convento ou no Seminário sem antes ter proporcionado a ele (a) uma séria caminhada vocacional, caso contrário, ao invés de estarmos ajudando, estaremos causando amargas revoltas, pois ele não terá condições de compreender as propostas e o estilo da Vida Religiosa. E quando falamos de caminhada vocacional, não significa que queremos um Convento em massa, mas o que queremos é sem dúvida, levar o jovem à maturidade de sua real vocação. E é um pena, que muitos padres resumem este trabalho em estágio vocacional ou não dão a devida importância para a pastoral vocacional.
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